Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O Porto através de uma Panorâmica de c.1870 9


fn1compfig. 1 - Autor não identificado  Panorâmica do Porto c. 1870 (originais em vidro do Museu Nacional de Soares dos Reis Porto) cópia cedida por gentileza do arquitecto Manuel Magalhães.

Conclusão da II Parte - A envolvente do Hospital
A frente nascente - A extraordinária resistência do quarteirão do “Piolho”

fn2fig. 2 – O Quarteirão do Piolho.

Neste texto e ao contrário dos anteriores iremos sucintamente abordar o período que decorre entre a construção do Hospital de Santo António e a actualidade.

Uma praça na frente do Hospital

Desde a decisão de implantar o Hospital na zona da Cordoaria que o seu projecto parecia implicar, segundo as normas do neoclássico desenho urbano, a abertura de um amplo espaço a nascente que desse a visibilidade à sua magnifica fachada de arquitectura palladiana.

No entanto, porque a construção do grandioso Hospital se tornou demasiado lenta e dispendiosa, “perdeu-se” no tempo dos Almadas a capacidade e a possibilidade de criar esse espaço urbano que enquadraria o edifício projectado por John Carr.

Assim, no início do século XIX, quer a perturbação causada pelas Invasões Francesas quer a nova concepção da propriedade e as novas formulações do desenho e da intervenção urbana da Revolução Liberal não permitiram a concretização desse espaço.

Nas plantas de 1813 e de J. F. de Paiva, ainda se pode ver que a criação dessa praça teria sido possível, desde que, por um lado fosse utilizado o terreno da cerca do antigo convento dos Carmelitas e, por outro fossem demolidos os três quarteirões (que numeramos de 3, 4 e 5) situados entre o Hospital e a Academia.

fn3compfig. 3 – Pormenor da planta Redonda de 1813.

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fig. 4 – Pormenor da planta de J. F. de Paiva de c.1822.

Apresentamos uma simulação muito esquemática de uma praça regular na frente do Hospital de Santo António. É apenas um esboço onde falta uma adaptação às cotas do terreno, a definição de percursos e acessibilidades, etc. etc..

fn5fig. 5 – Simulação esquemática de uma praça junto ao Hospital de Santo António sobre uma planta de c.1960.

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fig. 6 – Pormenor de uma planta com as curvas de nível.

Na verdade o lugar foi evoluindo e em 1827 é traçado um tímido alinhamento destinado a alargar a ligação entre a entrada principal do Hospital e a praça do Carmo.

Os três quarteirões

Dos três quarteirões, em frente ao Hospital - que numeramos de 3, 4 e 5 - só se equaciona demolir em 1827, aquele mais a nascente junto à Academia (com o nº5), quando este edifício estiver concluído na sua prevista forma rectangular (o que apenas acontecerá no início do século XX).

fn6compfig. 7 –Planta 1827. Para regular o alinhamento que se pretende n’esta Cerca dos Religiosos Carmelitas, da praça do Carmo, ao Hospital Real de S.to Antonio. 1827. AHMP.

1 Hospital Real de Santo Antonio nos lados de Nascente e Sul
2 Cerca e dormitórios do convento dos Carmelitas.
3 Quarteirão
4 Quarteirão (do Piolho)
5 Quarteirão Projectado a demolir-se concluída a Academia
6 Igreja dos Relig.os (Carmelitas)
7 Capella dos Terc.os (Carmo)
8 Real Collegio dos Meninos Orfaons, e Real Academia de Sciencias, e Marinha.
9 Praça do Carmo (antiga Praça ou Feira da Farinha até 1835).
10 Rua do Carmo
11 Actual Rua do Passeio (Passeio da Graça, Passeio da Cordoaria)
12 Rua da Restauração
13 Rua do Carregal (Rua do Paço, hoje rua do Professor Vicente José de Carvalho)
14 Rua do Anjo (Calçada dos Orfans, hoje rua do Dr. Ferreira da Silva)
a Viela ou Travessa dita do Assis (desaparecida)
b Viela ou Travessa dos Poços (hoje do Carmo)
c Viela ou Travessa do Carmo (desaparecida)


Nesta outra planta de 1838, já depois do período do Cerco do Porto, são traçados os alinhamentos que regularizariam a frente do convento do Carmo, o alinhamento da fachada poente da Academia que implicava a demolição parcial ou total do quarteirão (n.º5) e a rectificação da esquina do quarteirão n.º4, que nunca foi concretizada.


fn7fig. 8 - Plano topográfico para regular o alinhamento da Rua e Travessa do Carmo. Approvado Porto e Paços do Concelho 31 de Dez. de 1838. Legendada. AHMP.

1 Hospital Real de Santo Antonio nos lados de Nascente e Sul
2 Cerca dos Carmelitas
3 Quarteirão Terrenos e propriedades pertencentes à S.ta Casa da Misericórdia
4 Quarteirão (dito do Piolho)
5 Quarteirão Projectado a demolir-se concluída a Academia
6 Igreja dos Relig.os (Carmelitas)
7 Capella dos Terc.os (Carmo)
8 Real Collegio dos Meninos Orfaons, e Real Academia de Sciencias, e Marinha.
9 Praça do Carmo hoje dos Voluntários da Rainha
10 Rua do Carmo
11 Rua do Passeio da Graça (Passeio da Cordoaria)
12 Rua da Restauração
13 Rua do Carregal (Rua do Paço. Hoje Rua do Professor Vicente José de Carvalho)
a Viela ou Travessa (desaparecida)
b Viela ou Travessa dos Poços (hoje do Carmo)
c Viela ou Travessa do Carmo dita do Assis (desaparecida)


A criação do Largo da Escola Médica (hoje Largo Prof. Abel Salazar)


E apenas no relatório da Santa Casa da Misericórdia de 1852 se equaciona a demolição dos Quarteirões.

Assim afirma-se que “a Meza tentou entrar em combinação com a Ex.ma Camara, para a demolição dos prédios em frente do Hospital, pertencentes a esta Santa Casa, mediante indemnização, que se arbitrasse.

Com esta obra se desafrontaria aquelle bello Edificio, digno por certo de ser gozado em perspectiva, como o primeiro da Cidade, e uma obra-prima em architectura; e se fugiria à contingência, que em breve tempo se dará com aquelles prédios, de cahirem em completa ruina, pelo estado em que se acham, ou de se gastar anualmente em reparos, a maior parte do seu rendimento.” [1]

Mas esta iniciativa não tem continuidade e em 1861 apenas é aprovada a tímida criação de um alinhamento entre a fachada do Hospital e a demolição do Quarteirão poente (com o n.º 3), desafogando um pouco essa fachada pela criação de um pequeno largo ajardinado, que se chamará Largo do Hospital, depois Largo da Escola Médica. (hoje largo Abel Salazar).


fn8fig. 9 - Plano de melhoramentos em frente ao Hospital de Santo António. Approvada em sessão da Câmara de 7 de Novembro de 1861.Documento/Processo, 1861/11/07. Legendada. AHMP.

Legenda:
1 Hospital Real de Santo António
2 Cerca dos Carmelitas
3 Quarteirão demolido
4 Quarteirão (do Piolho)
5 Quarteirão
6 Igreja dos Carmelitas
7 Igreja do Carmo
8 Academia
9 Praça dos Voluntários da Rainha
10 Rua do Carmo
11 Passeio da Graça (do Carmo)
12 Rua da Restauração
13 Rua do Carregal (Rua do Paço)
a Viela ou Travessa (desaparecida) e largo em frente do Hospital (depois da Escola Médica e hoje Abel Salazar)
b Viela ou Travessa dos Poços (hoje do Carmo)
c Viela ou Travessa do Carmo (viela do Assis)


Na planta de Perry Vidal de 1865, ou porque a criação do pequeno largo ainda não está concretizada, ou pelo facto de a planta ser uma adaptação de um levantamento de 1844, essa intervenção não foi cartografada, e os quarteirões na frente do Hospital mantém-se inalterados.


fn9compfig. 10 – Pormenor da planta de Perry Vidal.1865.

Em 1865 a frente do Hospital de Santo António apresentava o seguinte aspecto.


ffn10compig. 11 – Francisco Augusto Nogueira da Silva (1830-1868), Hospital Real de Santo Antonio. Gravura cópia de uma photographia da collecção do Sr. Seabra. Archivo Pittoresco n.º32, 1865.

No final do século XIX, a edificação do edifício da Escola Médico-Cirúrgica e a instalação do quartel da Guarda Municipal no antigo convento, bem como a consolidação dos quarteirões a nascente do Hospital vieram comprometer definitivamente a criação de um amplo espaço que desafrontaria aquelle bello Edificio, digno por certo de ser gozado em perspectiva, como o primeiro da Cidade, e uma obra-prima em architectura.

Na planta de Telles Ferreira de 1892, podemos apreciar a situação do lugar no final do século, estando já consolidado o largo que então se chamou de largo da Escola Médica, mantendo-se contudo os quarteirões a nascente.

fn11compfig. 12 – A zona da Cordoaria. Pormenor da planta de Telles Ferreira de 1892.


[1] Hélder Pacheco, O Hospital de Santo António No Tempo da Cidade. Santa Casa da Misericórdia do Porto e Edições Afrontamento, rua Costa Cabral 859, Porto 2010. (pág.143).


A situação da envolvente nascente do Hospital nos finais do século XIX


fn12fig. 13 – Quadrícula 236 do levantamento de Telles Ferreira à escala 1:500, colorido. 1892. Legendada.

Legenda
1 – Hospital de Santo António.
2 – Escola Médico-Cirúrgica.
3 – Largo da Escola Médica, criado pela demolição do quarteirão poente.
4 – Quarteirão dito do café Piolho (que obviamente ainda não existia).
5 – Quarteirão que irá ser demolido com a conclusão do edifício da Academia.
6 – Igreja dos Carmelitas.
6ª – Antigo convento onde está instalado o Quartel da Guarda Municipal.
7 – Igreja do Carmo.
8 – Academia e Igreja da Graça.
9 – Praça dos Voluntários da Rainha.
10 – Rua do Carmo.
11 – Passeio da Graça.
12 – Rua da Restauração.


fn13compfig. 14 – Hospital de Santo António. A partir de uma imagem de Histórias da Medicina http://historinhasdamedicina.blogspot.pt/

Nas imagens seguintes podemos ver o Hospital ainda sem o frontão do pórtico central e ao fundo a Escola Médico-Cirúrgica.


fn14fig. 15 – Postal. Hospital da Misericórdia. C. 1905.


fn15fig. 16 – O Hospital de Santo António. AHMP.

Os dois quarteirões (n.º 4 e 5) cartografados na planta de 1892.


fn16fig. 17 – Pormenor dos quarteirões 4 e 5 na planta de Telles ferreira de 1892.

Alberto Pimentel em Praça Nova recorda o local nos seus tempos de infância, nos meados do século XIX:

O largo do Carmo é um dos sítios mais transformados desde o fim do século XIX até ao século actual.

A parede incompleta que devia ser a fachada ocidental da Academia Politécnica ocultava a igreja da Graça. A breve distância deste templo, para cujo pequeno adro se entrava por uma porta de ferro aberta na mesma parede, prolongava-se, no rumo do sul, o velho casarão que, fundado para Colégio dos Meninos Órfãos, hospedou também, depois de acrescentado em 1803, a Real Academia de Marinha e Comércio. [1]

Em 1861, quando eu fiz exame de instrução primária funcionava o Liceu Nacional no antigo casarão dos Órfãos.

fn17compfig. 18 - Joaquim Cardoso Villanova, Academia Polytechnica (Lado da Egreja dos Orphãos) poente. Imagem n-º3 do Album Edifícios do Porto em 1833, Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1987.


E Alberto Pimentel prossegue:

Por uma passagem interior havia comunicação entre o Liceu e a Academia Politécnica, e à fachada nobre do novo edifício, voltada para o largo do Anjo, faltava ainda o remate, estando apenas concluída a fachada oriental. [2]

Nos anos 80 do século XIX o edifício da Academia apresentava do lado sul e nascente o seguinte aspecto.


fn18fig. 19 – João Barbosa de Lima, João Batista Coelho Júnior (?-1900) e José Pedroso Gomes da Silva (1823-1890), Academia polytechnica do Porto in Archivo Pittoresco, n.º 9, 1886. (pág.249).

E poucos anos mais tarde estava já construído o corpo central da fachada sul.


fn19fig. 20 - Pormenor de uma das gravuras do Álbum de fotogravuras do Porto. Editor Leopoldo Wagner. Lisboa 1900.

E Alberto Pimentel recorda a zona e descreve a sua evolução na transição dos séculos.

Em frente das igrejas do Carmo e do seu terreiro, interposta a rua que daqueles templos recebeu o nome, havia um largozinho com uma casa térrea ao sul (a oficina do Lopes ferrador); e à ilharga ocidental desse recinto e da oficina abria-se, para o Campo da Cordoaria, a Viela do Assis [3]— atalho estreitíssimo. [4]


fn16fig. 21 – Pormenor da planta de 1892 legendada.

Legenda

A – Café do Carmo

B – Café da Graça

C – Viela do Assis (T. do Carmo)


[1] Alberto Augusto de Almeida Pimentel (1849-1925), Praça Nova Edição da Renascença Portuguesa, na Tipografia da Renascença Portuguesa, rua do Mártires da Liberdade, 178. Porto 1916. (pág. 80, 81 e 82).

[2] Alberto Augusto de Almeida Pimentel (1849-1925), Praça Nova Edição da Renascença Portuguesa, na Tipografia da Renascença Portuguesa, rua do Mártires da Liberdade, 178. Porto 1916. (pág. 80, 81 e 82).

[3] Francisco de Assis de Sousa Vaz (1797-1870), médico, professor da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, escritor, assistiu o rei Carlo Alberto na sua doença quando exilado na cidade do Porto.

[4] Alberto Augusto de Almeida Pimentel (1849-1925), Praça Nova Edição da Renascença Portuguesa, na Tipografia da Renascença Portuguesa, rua do Mártires da Liberdade, 178. Porto 1916. (pág. 80, 81 e 82).


Os cafés

Sendo a zona quotidianamente ocupada por uma população maioritariamente universitária era natural o aparecimento dos cafés.

Não promove immenso rizo,
Ouvir por esses cafés,
Moços que dizem ter sizo,
Mettendo as mãos pelos pés?
 [1]

No seu Guia do Viajante de 1877, Alberto Pimentel refere a existência de vários cafés, na sua maior parte ocupados pelos estudantes da Academia e da Escola Médico-Cirúrgica.

A poente existia o Café do Carmo, no largo do Carmo, 72. Fóra do botiquim ha mezas para o serviço no verão. Dentro, sala pequena, cheia de fumo de cigarro e de jogadores do dominó. No andar superior tem bilhar. Corre-se o risco de não poder recuar o taco pela estreiteza da casa. [2]

fn27fig. 22 - No quarteirão os cafés do Carmo e Ancora d’Ouro. Foto 19??. AHMP.


fn27afig. 23 – O Café do Carmo. Pormenor da figura anterior.

O Café do Carmo ocupava o rés-do-chão do edifício de gaveto do Largo do Carmo (praça Parada Leitão) com a rua do Carmo.

E em frente na esquina do edifício da Academia o Café da Graça também apontado no Guia do Viajante.

Café da Graça. — Fronteiro ao anterior. Botiquim da mesma ordem, nas mesmas condições. De vez em quando entra uma farinheira da Praça dos Voluntarios da Rainha, com a sua pequena caneca de louça, a comprar um vintem de café. Bom para estudar typos populares. Tem bilhar. [3]


fn28compfig. 24 – A fachada poente do edifício da Faculdade de Ciências (antiga Academia) com o local onde se encontrava o Café da Graça. Foto Alvão. anos 40 do séc. XX. AHMP.

O Café da Graça é também lembrado por Alberto Pimentel no seu livro intitulado Praça Nova, publicado em 1916.

Seja-me contudo permitido vincar, no canhenho das minhas lembranças, a página que diz respeito ao extinto Café da Graça, loja e sobreloja enconchadas na parede do edifício da Academia que fazia ângulo para o Largo do Carmo e para a antiga Praça da Farinha, depois chamada dos Voluntários da Rainha. Era um botequim de estudantes, onde passei não poucas horas em alegre convivência com os meus condiscípulos, sem nos importarmos com os caturras do dominó, mas importando-nos algum tanto com as lindas farinheiras e loiceiras que, de canequinha em punho, iam ali fazer a sua provisão de café. [4]

Alberto Pimentel assinala ainda o Café Portuense, na parte sul da Academia no Campo dos Martyres da Patria, (Cordoaria) 108. Sempre as mesmas caras, as mesmas phrases, e os mesmos grupos. Ha bilhar. [5]

A conclusão do edifício da Academia

No Annuario da Academia Polytechnica referente em Agosto de 1889, o matemático e professor Joaquim d'Azevedo, como delegado da Academia, ainda exige veementemente a conclusão das obras.

A Academia Polytechnica está installada num edifício por concluir na sua parte principal, e onde se acham tambem na parte que o tecto abriga, quasi toda de construcção provisoria e completamente arruinada, o Collegio de Nossa Senhora da Graça (Collegio dos meninos orphãos), e o Instituto Industrial e Commercial. A communicação interna da secretaria e das salas situadas no lado sul e nascente com as do norte está interrompida, por se achar especado, em ameaça de desabamento, o corredor provisorio que a esse fim se destinava. Lastimoso estado d'um edifício para uma escola superior e situado na segunda cidade do reino!! [6]

E formula uma proposta:

Proponho, como necessidade inadiavel, a conclusão do edifício da Academia segundo o plano estudado pelo fallecido engenheiro Alfredo Soares, sendo desde já urgentíssimo que se remova o collegio de Nossa Senhora da Graça (Collegio dos meninos orphãos), para se proceder immediatamente às obras que são absolutamente indispensaveis ao exercício academico; que se eleve a verba votada para as referidas obras, afim de se poder concluir de prompto a parte do edifício indispensavel à Academia, e que esse aumento seja sufficiente para sobre toda a verba se levantar um emprestimo que permitia concluir esse bello edifício, quando acabado, destinado a alojar tambem a outra Escola de instrucção superior da cidade, Escola Medico-Cirurgica. [7]


[1] Faustino Xavier de Novaes (1820-1869), O Bardo, Jornal de Poesias Inéditas. Publicado desde Março de 1852 a Março de 1854. Na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Santa Thereza, nº28. Porto 1854. (pág.32).

[2] Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, Palacio de Crystal livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.166).

[3] Alberto Augusto de Almeida Pimentel (1849-1925), Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, Palacio de Crystal livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.166)

[4] Alberto Augusto de Almeida Pimentel (1849-1925), Praça Nova Edição da Renascença Portuguesa, na Tipografia da Renascença Portuguesa, rua do Mártires da Liberdade, 178. Porto 1916. (pág. 80, 81 e 82).

[5] Alberto Augusto de Almeida Pimentel (1849-1925), Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, Palacio de Crystal livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.167).

[6] Joaquim d'Azevedo Souza Vieira da Silva Albuquerque (1839-1912), Annuario da Academia Polytechnica do Porto. Anno Lectivo de 1889-1890 (decimo terceiro anno), Typographia Occidental, Rua da Fabrica, 66. Porto 1890. (pág.20).

[7] Joaquim d'Azevedo Souza Vieira da Silva Albuquerque (1839-1912), Annuario da Academia Polytechnica do Porto. Anno Lectivo de 1889-1890 (decimo terceiro anno), Typographia Occidental, Rua da Fabrica, 66. Porto 1890. (pág.39).


O século XX

O Quarteirão em duas plantas do princípio do século XX.


fn112fig. 25 - Pormenor da Planta da Cidade do Porto referida ao ano de 1903 de João José Mendonça Cortês (1838-1912). BND.


fn111fig. 26 – Pormenor da planta do Guidebook Baedeker Spain and Portugal Handbook for travellers by Karl Baedeker. 3ª ediçao. Leipsic, London, New York.1908.



fn20gcompfig. 27 – Foto da Casa Alvão in A Cidade do Porto na obra do Fotografo Alvão 1872-1946. Ed. da Fotografia Alvão Porto 1993.


No século XX irá finalmente ser concluído o edifício da Academia Politécnica, cujo projecto inicial de forma trapezoidal e conservando a Igreja de N. Sr.ª da Graça, foi ao longo do século XIX, adquirindo a forma de um rectângulo, com intervenções de Gustavo Adolfo Gonçalves de Sousa (1818-1899) em 1862 e António de Ferreira de Araújo e Silva (1843-?) em 1898.

A conclusão do edifício implicou a demolição do quarteirão nascente (n.º5), e a transformação do Passeio da Graça (Passeio da Cordoaria) na praça da Universidade depois praça de Parada Leitão [1].

Como refere Firmino Pereira:

Foram as obras proseguindo, com maior ou menor atividade, e consoante o estado financeiro do paiz o permitia, até que ha anos tomaram maior desenvolvimento, expropriando-se as casas próximas e desaparecendo, por completo, os antigos Passeios da Graça, a estreitíssima viela do Assis, e as lojas de louça ordinaria, 0s talhos, os cafés, as padarias, as tabernas, estabelecidas em toda a volta do edifício, compreendendo a demolição a egreja e o colégio dos Órfãos. [2]


fn21fig. 28 - Projecto de conclusão do edifício da Academia Politécnica planta do andar térreo. Tinta e lápis sobre cópia 1,25x0,68 esc 1/100 Direcção Geral de Obras Públicas / SE 1908/1909 DOPDP-SE/DGEMN/UA16/1.3/981983 in Mário João Mesquita, Da Academia à Universidade. Catálogo da Exposição DGEMN 2007.


fn22compfig. 29 - Direcção Geral de Obras Públicas / SE 1910/12. Litografias do Edifício da Academia Polytechnica do Porto in Mário João Mesquita, Da Academia à Universidade. Catálogo da Exposição DGEMN 2007.

Em 1911 conclui-se o edifício e com a criação pela República da Universidade do Porto esta irá inicialmente funcionar no edifício da Cordoaria, também ocupado pela Faculdade de Ciências.

Também a criação da Faculdade de Medicina nas instalações da Escola Médico-Cirúrgica, que veio substituir, conferiram ou acentuaram as características deste espaço urbano como um espaço universitário e estudantil. [3]

Escreve Alberto Pimentel:

As casas que desde a esquina da rua do Carmo contornavam a oeste aquele insignificante largo, incluindo a do médico Assis, ainda hoje estão de pé, e leves modificações teem experimentado.

Tudo o mais é diferente. Foi demolida a igreja da Graça, completaram-se as fachadas norte e poente da Academia Politécnica, desapareceram as casas dos Passeios da Cordoaria e a que, em frente das igrejas do Carmo, era a oficina do Lopes. A Viela do Assis sumiu-se sem deixar saudades a ninguém. Diante do largo do Carmo (muito ampliado) rasgou-se a clareira que patenteia as árvores e canteiros do jardim da Cordoaria. [4]

fn23compfig. 30 – Postal do início do século XX com a Praça da Universidade, depois Parada Leitão.

São visíveis na frente do quarteirão (n.º4) a Tipografia e Papelaria e o Hotel Portugal aí existentes.


fn24fig. 31 – Foto do início do século XX com a Praça da Universidade, depois Parada Leitão.


[1] José Guilherme de Parada e Silva Leitão (1809-1880). Militar participou no desembarque do Mindelo e no Cerco do Porto, e foi professor da Academia Polytechnica.

[2] Firmino Pereira, O Porto d’outros tempos. Notícias Historicas, Memorias, Recordações. Livraria Chardron, de Leio & Irmão. Rua das Carmelitas, 144, Porto 1913. (pág. 142 e 143).

[3] A Universidade foi ainda ampliada em 1915 com a criação da Faculdade de Engenharia, a primeira Faculdade de Letras em 1919 e a Faculdade de Farmácia em 1921.

[4] Alberto Augusto de Almeida Pimentel (1849-1925), Praça Nova Edição da Renascença Portuguesa, na Tipografia da Renascença Portuguesa, rua do Mártires da Liberdade, 178. Porto 1916. (pág. 80, 81 e 82).


A praça dos Voluntários da Rainha, conhecida como praça dos Leões e hoje praça Gomes Teixeira [1].

A conclusão do edifício da Academia irá também provocar a consolidação da praça dos Voluntários da Rainha.

fn25fig. 32– Joaquim Cardoso Villanova, Academia Polytechnica (Lado da Praça dos Voluntários da Rainha), imagem n.º8 do Album Edifícios do Porto em 1833, Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1987.

A praça delimitada por árvores e que então se chamava de Voluntários da Rainha, tinha ainda uma conformação de um campo de feira, sendo que aí se realizava a feira de cereais e por isso conhecida até 1835 como a praça da Farinha. Essa Feira do Pão será concentrada na praça de Santa Teresa (depois Guilherme Gomes Fernandes).

Na figura de notar que o lado poente da fachada da Academia está por terminar, vendo-se a cobertura da torre sineira da igreja da Graça. A praça era então um amplo terreiro limitado pela arborização.

fn26gcompfig. 33- Casa Alvão c. 1880, fotografia a partir de vidro. Arquivo CPF/MC in Mesquita, Mário João – Da Academia à Universidade Catálogo da Exposição DGEMN 2007.

Na viragem do século inicia-se a transformação da praça dos Voluntários da Rainha.

Em 1885 é colocada a Fonte dos Leões projectada e construída entre 1878 e 1882, pela Compagnie Générale des Eaux pour l'Etranger.


fn29fig. 34 - Fonte dos Leões 187. Fonte Monumental. Modelo aprovado pela CMP. Arquivo Fotográfico dos SMAS in Alexandra Agra Amorim e José Neves Pinto, Porto D’Água. SMAS 2001.

A Fonte inicialmente protegida por uma vedação de ferro é composta por um tanque octogonal tendo no centro quatro leões alados em bronze. Sobre estes uma primeira taça redonda de onde jorra água e uma segunda mais pequena encimada por um pináculo.

Na imagem vê-se a arborização periférica da praça, a fonte com o gradeamento e ainda sem as palmeiras.


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fn30fig. 36 - A fonte ainda com o gradeamento - Arquivo Fotográfico dos SMAS in Alexandra Agra Amorim e, José Neves Pinto, Porto D’Água, SMAS 2001.

Alberto Pimentel recorda a situação da praça.

O chafariz de bronze na Praça dos Voluntários da Rainha, o alargamento do passeio lateral à igreja dos Terceiros do Carmo e ao seu hospital amplíssimo, assim como a transformação da Praça de Carlos Alberto em jardim público, completam o aspecto moderno deste trecho da cidade. [2]

As duas palmeiras que ladeavam a Fonte, plantadas no início do século vinte, conviveram durante alguns anos com a arborização periférica da praça, criando um aprazível e procurado ambiente de jardim. (Viveram até 2001 quando foram abatidas pelas obras da Porto 2001 e substituídas por outras então adquiridas).


fn31afig. 37 – Postal. Porto. Praça dos Voluntários da Rainha.


fn32fig. 38 – Postal. Praça dos Voluntários da Rainha. Início do século XX.


fn33fig. 39 - Postal. Praça dos Voluntários da Rainha. Início do século XX.

A praça já na segunda década do século XX, com a placa central com a fonte rodeada pelas palmeiras e já sem a arborização periférica.


fn34fig. 40 – A Praça dos Voluntários da Rainha, onde estacionavam os trens de praça. Ao fundo um “eléctrico”.

A nascente a praça era limitada pelos Grandes Armazéns do Chiado com uma frente que abria para a praça e uma outra para a Galeria de Paris.

Em 1910 Carlos Magalhães no Guia do Porto Illustrado refere: (…) na praça dos Voluntários da Rainha encontra-se vasta e luxuosa installação commercial — os Grandes Armazens do Chiado, um dos primeiros estabelecimentos do Porto, e dos que conta mais numerosa e escolhida clientella…” [3]


fn35fig. 41 – Foto do Guia do Porto Illustrado, 1910.



fn105compafig. 42– O Quarteirão do Piolho no sistema dos espaços públicos da área central do Porto antes de 1916. in AA.VV. Avenida dos Aliados e Baixa do Porto, Porto Vivo SRU, Porto 2013.


[1] Francisco Gomes Teixeira (1851-1933), matemático e professor universitário.

[2] Alberto Augusto de Almeida Pimentel (1849-1925), Praça Nova Edição da Renascença Portuguesa, na Tipografia da Renascença Portuguesa, rua do Mártires da Liberdade, 178. Porto 1916. (pág. 80, 81 e 82).

[3] Guia do Porto Illustrado, com desenhos e direcção litteraria de Carlos Magalhães, Empreza dos Guias "Touriste".Porto 1910.


O Café Ancora d’Ouro dito O Piolho


fn38compfig. 43 – Localização do Café Ancora d’Ouro, dito o Piolho. Pormenor da planta do Guia de Portugal, Vol. IV Entre Douro e Minho. F. C. G. 1964.

Existiria já no século XIX mas é no início do século XX que o Café Ancora d’Ouro rapidamente se tornou o café mais procurado pelos estudantes de medicina e da academia, dando-lhe a alcunha, que mantém, de o café Piolho.


fn40afig. 44 – O Café Ancora d’Ouro no século XX.

fn40fig. 45 – O Café Ancora d’Ouro. Fotografia de 2008 de Manuel de Sousa na Wilkimedia.

A popularidade do Piolho terá sido uma razão, não menor, da resistência do quarteirão à sua demolição.

fn56compfig. 46 - Praça dos Leões anos 20. Foto da Casa Alvão in A Cidade do Porto na obra do Fotografo Alvão 1872-1946. Ed. da Fotografia Alvão Porto 1993.


fn41compfig. 47 – Foto c.1930 da Casa Alvão in A Cidade do Porto na obra do Fotografo Alvão 1872-1946.Ed. da Fotografia Alvão Porto 1993.


O Quarteirão e os planos de urbanismo - propostas, intervenções e permanências

Em 1916 o engenheiro Augusto César da Cunha Moraes (1850-1939), pertencente a uma família de fotógrafos e proprietários da Fábrica de Fiação A. C. Cunha em Gaia, apresenta uma proposta intitulada Os Melhoramentos da Cidade no Porto [1]. Nela insere uma planta da cidade com um conjunto de traçados constituindo um esboço de um Plano.

Cunha Moraes, no momento em que apenas se inicia a abertura da Avenida dos Aliados, propõe em alternativa a criação de uma larga avenida a partir da praça de Carlos Alberto, junto da Cordoaria que considera a zona mais monumental da cidade, já que aí se encontram a igreja e a torre dos Clérigos, o Tribunal e Cadeia da Relação, o convento de S. Bento da Vitória, o Hospital de Santo António, a Universidade, o Quartel da Guarda Republicana e a igreja dos Carmelitas, a igreja do Carmo e o Hospital da Ordem Terceira do Carmo, a Faculdade de Medicina (antiga Escola Médico-Cirúrgica), o Jardim da Cordoaria, a igreja de S. José das Taipas e ainda o Mercado do Peixe.

Assim e apesar de cartografar a sua visão radical da expansão da cidade, a que não são alheias as intervenções de Haussmann [2] e de Cerdà [3], e de projectar essa avenida para norte a partir da zona da Cordoaria, e referindo que…não virá longe o dia em que o centro citadino tenha de ser a actual Praça de Carlos Alberto ou suas proximidades, o Quarteirão do Piolho conserva-se intocado.

fn115fig. 48 – O Quarteirão do Piolho salientado a vermelho. Pormenor do Plano de Cunha Moraes 1916.

Esta ideia de uma ampla avenida a partir da praça de Carlos Alberto, perdurará nos diferentes planos seguintes até à 2ª Guerra Mundial, ou seja até à conclusão da Avenida dos Aliados.


O Plano Barry Parker [4]

Apesar de não alterar a zona da Cordoaria e também não interferir com o Quarteirão, o plano de Barry Parker irá ainda que indirectamente ter influência na transformação da zona.

Barry Parker [5] foi chamado pela Câmara Municipal de Elísio de Melo, e permaneceu no Porto até ao final do ano de 1915, onde elaborou, em diálogo com a Câmara, o projecto da Avenida.

O seu Plano limitava-se inicialmente à abertura de uma Avenida que prolongava para norte a praça da Liberdade, não interferindo por isso directamente na zona da Cordoaria.

No entanto Barry Parker projectou duas vias diagonais que partindo da praça do Município se prolongavam para nascente e para poente.

A rua a poente, a futura rua de Ramalho Ortigão, era prolongada até encontrar o prolongamento da rua de Passos Manuel (rua Elísio de Melo) na praça Guilherme Gomes Fernandes. Sensivelmente a meio no local em que cruzava a rua da Picaria era criada uma praça. (Com uma forma diferente será a futura praça de Filipa de Lencastre).

fn36fig. 49 - Planta apresentada na Memória e que corresponde ao 2º projecto de Barry Parker

Barry parker propõe “…que as ruas diagonaes deveriam atravessar a Avenida junto do seu extremo Norte, a fim de que para ahi afflua a circulação” e “…que, passando por ahi, ficarão quasi ruas planas, cor­rendo em direcções dos lados de Leste e Oeste que fornecem caminhos alternados entre os dois pontos importantes da cidade, já por mim apontados, evitando a descida e subida do valle.” [6]

Barry Parker, já em Inglaterra em 1916, ampliará o seu plano da zona a norte da praça da Trindade até à ponte Luiz I, consolidando a proposta das diagonais que partindo da Avenida confluem para a praça de Santa Teresa (praça Guilherme Gomes Fernandes).


fn99acompfig. 50 – Pormenor do Plano de extensão da Avenida até à ponte Luiz I. 1916.

Tem significado para a consolidação do Quarteirão o facto de em 1925, na presidência de Alfredo Magalhães, [7] a proposta de no Largo da Escola Médica se erigir um monumento a Júlio Dinis comemorando o centenário da Faculdade de Medicina.

O monumento da autoria do escultor João Silva (1880-1960), então a residir e trabalhar em Paris, é inaugurado no ano seguinte.

O monumento, rodeado por carvalhos (Quercus róbur), é formado por um busto de Júlio Dinis, uma elegante figura de mulher que o coroa com uma grinalda de rosas e um baixo-relevo em que se representa a leitura de um livro d’aquelle insigne romancista n’um serão de família. [8]


fn43fig. 51 – Foto Alvão. Postal. Porto. Hospital da Misericórdia e Monumento a Júlio Dinis.


fn44fig. 52 - Fotografia de Teófilo Rego. Monumento a Júlio Dinis. C.1960. AHMP.


[1] A.C. Cunha Moraes (1850-1939), Os Melhoramentos da Cidade do Porto, Typographia Pereira, Porto 1916.

[2] Georges Eugène Haussmann (1809 – 1891), Prefeito de Paris (Sena) entre 1853 e 1870. Responsável pela transformação urbana da capital francesa.

[3] Ildefons Cerdà (1815-1876), autor do plano de expansão de Barcelona (Plan de Ensanche) de 1855.

[4] Ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/08/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos_23.html

[5] Richard Barry Parker (1886-1887). Autor do Plano da Avenida dos Aliados 1915/16.

[6] “Memórias sobre a projectada Avenida da Cidade (Da Praça da Liberdade ao Largo da Trindade) pelo engenheiro Barry Parker, Typographia a vapor da Empresa Guedes, 244, Rua Formosa, 248. CMP. Porto Setembro de 1915.

[7] José Alfredo Mendes de Magalhães (1870-1957), médico e professor da Faculdade de Medicina. Presidente da Câmara do Porto entre 1933 e 1936.

[8] O Commercio do Porto de 28 de Novembro de 1926.


As propostas do engenheiro Ezequiel de Campos

O primeiro plano que prevê uma profunda intervenção na Cordoaria e a demolição do Quarteirão é o Prólogo ao Plano da Cidade do Porto de Ezequiel de Campos (1874-1965). [1]

Publicado em 1932, propõe para a área central um “Centro Universitário” localizado “…entre a Praça de Carlos Alberto e a Relação; da igreja dos Clérigos ao Hospital de Santo António”, transformando este em Tribunal e deslocando o Hospital para “N.E. da Cidade”.

A ideia de um Hospital Regional e Escolar, localizado na zona da Asprela, irá ganhando forma ao longo dos anos 30 e resultará no Hospital de S. João, projectado nos anos 40 e inaugurado no final dos anos 50.

Este Centro Universitário segundo Ezequiel de Campos implicava que o quarteirão do café “Piolho” (Âncora d’Ouro) “…onde agora está um casario fraco” seria demolido para ser aí construído um novo edifício universitário (na planta Edifício 1).

fn46fig. 53 - Pormenor da planta Esquisso de Reforma do Centro Actual da Cidade do Porto de Ezequiel de Campos para o centro da cidade, legendada.

Do mesmo modo seria demolido o outro quarteirão entre a Travessa de Sá de Noronha e a actual Praça da Universidade, onde seria construído um outro edifício universitário ou administrativo. (Na planta Edifício 2).

Com a desactivação do quartel da Guarda Republicana e o Conservatório reedificado “perto do sítio actual” Ezequiel de Campos propunha uma larga avenida no sentido sul norte, que se bifurcava seguindo um braço para norte até à estrada para Viana do Castelo e o outro para noroeste até à Rotunda da Boavista e daí para o porto de Leixões. Uma outra avenida partia da praça Guilherme Gomes Fernandes em direcção a Braga.


fn46a

fig.54 - Esquisso de Reforma do Centro Actual da Cidade do Porto de Ezequiel de Campos.As vias que partiam da Cordoaria para norte sublinhadas a amarelo.

Com as novas ruas, e as praças e os jardins retocados, o conjunto ficará harmonioso, talvez, conclui Ezequiel de Campos.


Nas décadas de 30 e 40

Nenhuma das propostas de Ezequiel de Campos para a zona do Hospital de Santo António tem seguimento e entre 1938 e 1943, durante a acção dos arquitectos italianos no planeamento da cidade, a zona da Cordoaria também não sofrerá directamente quaisquer transformações.

Mas no levantamento da cidade dos anos trinta ainda surge apontado o traçado do prolongamento da rua Ramalho Ortigão da praça do Município até à praça de Santa Teresa.

fn94fig. 55 – A zona da Cordoaria. Pormenor do levantamento de 1933.



fn73afig. 56 – Projecto de prolongamento das Ruas Ramalho Ortigão e Elísio de Melo. 1934.

De facto as preocupações dos urbanistas italianos e da Câmara Municipal prendem-se com a ligação da cidade ao porto de Leixões, então em construção, ao planeamento da zona de implementação do Hospital Escolar e aos acessos à cidade pelo sul: ponte da Arrábida e ligação da ponte Luiz I à Avenida dos Aliados, então em edificação. [2]

Consolida-se, contudo, a ideia de prolongar a rua de Elísio de Melo até à praça Guilherme Gomes Fernandes e daí até à praça de Carlos Alberto

Nesta proposta destaca-se ainda o arruamento, já considerado por Cunha Moraes, que partindo do lado nascente da praça Carlos Alberto, junto à casa Balsemão, se dirigia para norte em linha recta até à rua da Boavista, sensivelmente paralelo à rua dos Mártires da Liberdade.


fn47afig. 57 – Marcello Piacentini, Nuovo Schema Viario del Centro di Porto. 1938.AHMP.

Repare-se que é anulada a rua de Ramalho Ortigão embora a sua abertura já estivesse decidida pela Câmara Municipal.

fn47fig. 58 – Pormenor da figura anterior.

Posteriormente, retomando a ideia de Cunha Moraes, é reafirmada a proposta de uma via que partindo da praça Carlos Alberto, formaria a norte uma praça no cruzamento da rua de Gonçalo Cristóvão prolongada para poente, e se prolongaria até à Circunvalação.

Giovanni Muzio esclarece a sua proposta de uma grande avenida Norte/Sul a qual “penetrando no coração da cidade terminará numa grande praça (A), junto à praça da Republica. (…) O tráfico desta grande artéria atingiria a Avenida dos Aliados mediante uma nova rua com traçado semi-circular e continuaria para a parte oriental da cidade com a nova diagonal até à praceta dos novos Correios onde seguiria pela rua Passos Manuel e avenida Rodrigues de Freitas até à estação de Campanhã.”

Da grande praça A, que prevejo fechada a Sul por um edifício monumental, digno pano de fundo desta amplíssima praça e da avenida que se dirige para a cidade, pode-se chegar ao Centro seguindo um percurso, em parte também considerado por vocês, atravessando o largo da Lapa até atingir uma nova praça situada entre as ruas Camões e Cardoso.

Do mesmo modo a rua em frente do Hospital de Santo António seria prolongada para norte ligando este com o Centro Histórico.

fn114afig. 59 - Giovanni Muzio (1893-1982), 3º Esquema Geral de Giovanni Muzio 1937.

A proposta de Giovanni Muzio consolidada na Planta do Plano de Urbanização do Porto onde se assinalou a zona e o Quarteirão.


fn113fig. 60 - Giovanni Muzio (1893-1982) Plano de Urbanização do Porto, 1940. AHMP in Mesquita, Mário João – A Cidade da Universidade, catálogo da Exposição, UP 2006


fn48compfig. 61 – Pormenor da figura anterior.


Nos anos 30 do século XX, a praça dos Leões, cujo nome oficial era de praça dos Voluntários da Rainha, passa em 1936 a chamar-se Praça Gomes Teixeira em homenagem ao matemático e reitor da Universidade Francisco Gomes Teixeira (1851-1933).

E dois edifícios vem consolidar a zona da Cordoaria: o novo edifício da Faculdade de Medicina no gaveto formado pela rua do Carmo e a rua pela rua do professor Vicente de Carvalho e a remodelação da fachada dos Armazéns Cunha voltada para a praça dos Leões (Gomes Teixeira).


O novo edifício da Faculdade de Medicina

O edifício da Faculdade de Medicina (1928/1933) é um projecto dos arquitectos Baltazar de Castro (1891-1967) e Rogério de Azevedo (1898-1983), com uma fachada onde é utlizada uma linguagem neoclássica, tentando uma integração com o vizinho Hospital de Santo António. Lembre-se que no mesmo período Rogério de Azevedo projecta a moderna Garagem do Comércio do Porto.

As novas instalações da Faculdade de Medicina, pelo aumento da população de estudantes, professores e médicos, contribui para animar o Café Ancora d’Ouro, como se pode ainda hoje constatar pelas placas evocativas dos diferentes curso médicos que decoram as suas paredes.

fn50afig. 62 – Projecto da fachada principal do novo edifício da Faculdade de Medicina.

Note-se que não foram realizados quer a inscrição quer a colocação de símbolos da Medicina estátua e baixo-relevo no tímpano.

fn51acompfig. 63 – O novo edifício da faculdade de Medicina do Porto c.1933


fn51bfig. 64 - O novo edifício da Faculdade de Medicina do Porto c.1940.

Na fotografia seguinte vê-se ao fundo o novo edifício da Faculdade de Medicina.


fn54compfig. 65 – Foto da praça Gomes Teixeira vendo-se ao fundo o novo edifício da Faculdade de Medicina.


fn52afig. 66 – Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Planta Topografica.


fn53fig. 67 – Alçado lateral da antiga Faculdade de Medicina.


Os Armazéns Cunha

A remodelação da fachada dos Armazéns Cunha segundo um projecto dos arquitectos Manuel Marques (1890-1956) e Amoroso Lopes (1899-1953) marca o aparecimento de um gosto art-déco como introdução da modernidade na arquitectura da cidade do Porto. Lembre-se ainda outros estabelecimentos contemporâneos no centro da cidade de que se destaca a Farmácia Vitália.


fn55fig. 68 – Manuel Marques e Amoroso Lopes, Projecto de remodelação da facha principal dos Armazéns Cunha. Agosto de 1935.


fn57fig. 69 – A fachada depois de remodelada.


O Estudo para o Plano Regulador

No início dos anos 40 fruto da colaboração com o arquitecto Giovanni Muzio a Câmara Municipal do Porto tenta elaborar um Plano Regulador para a cidade.


fn49acompfig. 70 – Estudo para o Plano Regulador. 1941. CMP.

Neste estudo e apesar da zona da Cordoaria constituir um espaço importante para a circulação entre a cidade oriental e ocidental e da proposta de abertura da rua de Ceuta e o seu prolongamento da praça Carlos Alberto até ao Jardim do Carregal, e sobretudo da via que partindo da praça Carlos Alberto se dirige para na norte, o quarteirão do Piolho mantém-se inalterado.


fn49pormfig. 71 – A zona da Cordoaria. Pormenor da planta anterior.


[1] Ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/09/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos.html

[2] Ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/11/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos.html


Após a segunda Guerra Mundial. O final dos anos 40 e os anos 50.

Na planta dos finais dos anos 40 a Cordoaria e a sua envolvente onde o quarteirão dito do Café Piolho vai-se consolidando.

fn58fig. 72 - Pormenor do levantamento dos finais dos anos 40.

A – Jardim João Chagas (jardim da Cordoaria)
B – Avenida dos Aliados
C – Praça Filipe de Lencastre
1 – Igreja dos Clérigos
2 – Tribunal e Cadeia da Relação
3 – Igreja de S. José das Taipas
5 - Mercado do Peixe
6 – Hospital de Santo António
7 – Faculdade de Medicina da UP
8 – Quartel da Guarda nacional Republicana
9 – Igrejas do Carmo e dos Carmelitas
10 – Hospital do Carmo
11 – Faculdade de Ciências da UP
12 – Mercado do Anjo

A Cordoaria no Plano regulador de A. Almeida Garrett

Antão de Almeida Garrett no seu Plano Regulador da Cidade de 1952, previa a promoção de estudos para os conjuntos edificados e os espaços públicos, tais como o "Estudo de arranjo urbanístico do jardim da Cordoaria e Zonas Urbanas adjacentes", alinhamentos de cérceas e valorização de fachadas.

Este estudo, contudo, nunca foi concretizado e apenas pontualmente se realizaram alterações na zona da Universidade.

Não é claro o destino do quarteirão do Piolho.

fn73fig. 73 – Planta de Zonamento do Plano Regulador da Cidade do Porto. Sublinhada a vermelho a zona da Cordoaria.

Nestes anos o que na envolvente de significativo se realiza é a abertura da rua de Ceuta segundo um plano de 1942 do Gabinete de Urbanização da CMP dirigido então por Arménio Losa.

Era formulada a hipótese de prolongar a rua de Ceuta em túnel, mas da qual se anteviam problemas estéticos e financeiros.

Era possível evitar o referido declive se, ligando em um só trainel as praças de Filipa de Lencastre e Carlos Alberto, se fizesse o atravessamento da Rua José Falcão em passagem inferior sob uma pequena obra de arte a que poderia dar-se beleza e pitoresco. Obrigava porém tal solução a um profundo corte no terreno além de não permitir a execução por pequenos troços que tornam mais viável o empreendimento da obra de tal envergadura. (…) [1]

(O túnel será realizado quando as diferentes condições da cidade já não o tornavam necessário, no início do século XXI).

Assim apenas se concretiza a rua de Ceuta entre a praça Filipa de Lencastre e a rua José Falcão.


fn73cfig. 74 – Proposta de prolongamento da rua Elíseo de Melo. Outubro de 1941. CMP. In Adriana Pacheco Rodrigues Gravato “Trajecto do Risco Urbano, A Arquitectura na Cidade do Porto nas décadas de 30 a 50 do século XX, através do estudo do conjunto da Avenida dos Aliados à rua de Ceuta”, Faculdade de Letras da Universidade do Porto 2004.

Apesar do projecto ser aprovado em 1944, só em 1950 é que são projectados os primeiros edifícios para a rua, sendo 1958 o ano de conclusão da totalidade das construções.


fn98afig. 75 – Planta das ruas de Elíseo de Melo e de Ceuta com as datas da realização do edificado. Desenho in Maria Adriana Pacheco Rodrigues Gravato “Trajecto do Risco Urbano, A Arquitectura na Cidade do Porto nas décadas de 30 a 50 do século XX, através do estudo do conjunto da Avenida dos Aliados à rua de Ceuta”, Faculdade de Letras da Universidade do Porto 2004.

Tem também alguma influência na zona da Cordoaria a criação em 1946 pelo decreto n.º 35.717 de 24 de Junho, do Serviço de Transportes Colectivos do Porto (S. T. C. P.).

Os eléctricos, mantendo ainda a supremacia do transporte público na cidade, vão progressivamente sendo substituídos pelos autocarros (introduzido em 1948) e, posteriormente, pelos trolleys (que aparecem em 1959).

Na zona há uma alteração da que consiste na circulação do transporte colectivo sobre carris (eléctricos) em torno da Faculdade de Ciências como se vê na planta seguinte.


fn60compfig. 76 – Projecto de modificação do traçado das linhas de tracção eléctrica na zôna do Carmo. CMP Serv.º de Transp.tes Colectivos do Porto.

Também a Faculdade de Medicina é transferida nos finais dos anos 50 para o Hospital de S. João, e o edifício junto ao Hospital de Santo António irá ser ocupado pela renovada Faculdade de Letras que havia sido desactivada nos anos da Ditadura Militar.

No entanto o Piolho ou Café Ancora d’Ouro continua a ser o local de encontro e convívio dos estudantes universitários e os espaços públicos e o edificado da zona apresentam-se com poucas alterações em relação ao início do século.

fn122fig. 77 – O Quarteirão (a vermelho) no sistema do Centro do Porto nos anos 50.


[1] Arménio Losa (1908-1988), Memória justificativa do traçado do prolongamento da Rua Elísio de Melo. Porto Agosto 1942. CMP.



O Quarteirão e o Plano Auzelle 1962

A segunda e última iniciativa para a demolição do Quarteirão é proposta no início dos anos 60, quando é elaborado e publicado o Plano Director da Cidade do Porto, conhecido como Plano Auzelle do nome do seu coordenador o arquitecto e urbanista francês Robert (Gaston Léon) Auzelle (1913-1983). [1]

Na Cordoaria é inaugurado em 1961o Palácio da Justiça, segundo um projecto do arquitecto Raul Rodrigues Lima (1909-1979) elaborado nos anos 40.

Mas é também inaugurada em 1963 a Ponte da Arrábida segundo um projecto de Edgar Cardoso (1913-2000), que irá provocar alterações na cidade e que, embora indirectamente, também provocará alterações para a zona.


fn63afig. 78 – Planta Síntese do Plano Director da Cidade de 1962.CMP.

No Plano a cidade é inicialmente cartografada na situação em que se encontrava nos finais dos anos 50, um conjunto de oito cartas denominada Planta do estado actual da cidade.

Com uma preocupação fundamental pela circulação rodoviária o Plano analisa o estado então da zona da Cordoaria.


fn63fig. 79 – Pormenor da zona da Cordoaria Plano Auzelle Volume II – folha n.º 6 da Planta do Estado Actual da Cidade detalhe da zona da Cordoaria.

Jardins públicos (a verde)
Vias urbanas (a rosa)
E edifícios Administrativos
F edifícios Religiosos
G edifícios de Ensino
H edifícios de Cultura
J edifícios de Espectáculos
L edifícios de Saúde
M edifícios de Segurança


Para a  zona o Plano, na sua constante preocupação com a circulação, propunha uma via que permitisse  “estabelecer uma ligação directa da ponte da Arrábida com o centro da cidade, comportando um troço em túnel sob o Jardim da Cordoaria e considerava que “este túnel é de fácil construção, pois pode ser executado a céu aberto, e a sua realização não obriga a quaisquer expropriações”.

Para melhor compreensão das propostas do Plano Auzelle para a zona apresenta-se uma das plantas inseridas no número 67 de 1960 dedicado à cidade do Porto da revista francesa Urbanisme.

fn64acompfig. 80 - Luís Almeida d’Eça e Lúcio Miranda, Primeiro estudo para a zona da Cordoaria, figura 49, de Porto, études et réalisations, Urbanisme 29, Année n.º 67, 254 boulevard Raspail. Paris 1960. (pág.25).


O túnel, eliminando a rua de S. Filipe Nery, permitiria “aumentar consideravelmente a área do jardim da Cordoaria, (…) o maior espaço verde do centro da cidade” estendendo-se  até à praça de Lisboa.

Tal túnel nunca será realizado, sendo substituído pelo anacrónico túnel da rua de Ceuta, na transição do século XX para o XXI.


fn64fig. 81 - Plano Auzelle Volume III – documento 5 Acesso da Ponte da Arrábida ao centro da Cidade –Pormenor do túnel da Cordoaria

Na praça de Lisboa (antigo mercado do Anjo) previa-se a construção de um parque de estacionamento subterrâneo que, de facto se concretizou já nas últimas décadas do século XX.

Quanto ao Quarteirão do Café Piolho o Plano previa a sua demolição e no seu lugar a construção de um edifício com a forma de uma cruz gamada de três braços de acordo com a necessidade de instalações para escritórios.

fn65fig. 82 – Pormenor da Planta de Síntese do Plano Director da Cidade (fig. 75). Em 8 folhas na escala de 1:5 000.

Zona central (raiada de vermelho)

Zona de actividade terciária (a azul)

(Delimitação da) Zona de interesse arquitectónico (pequenos círculos)

Também se apresenta, dos estudos para o Plano Auzelle, uma das plantas inseridas no número 67 de 1960 dedicado à cidade do Porto da revista francesa Urbanisme.

Note-se que, para além do edifício que substituiria o quarteirão demolido, também se previa a demolição do quarteirão a norte da praça Gomes Teixeira (praça dos Leões), prolongando-se para toda a frente virada para a praça de Carlos Alberto.

Também é projectada uma construção nas traseiras do Hospital de Santo António (que apenas será realizada no final do século) e um parque de estacionamento no Largo do Viriato.


fn66afig. 83 - Luís Almeida d’Eça e Lúcio Miranda, Primeiro estudo para a zona da Cordoaria, figura 48, de Porto, études et réalisations, Urbanisme 29 Année n.º 67, 254 boulevard Raspail. Paris 1960. (pág.25).

Na planta de pormenor do Plano, onde se assinalam os sentidos dos percursos rodoviários (et pour cause!), pode-se constatar em pormenor o que o plano Auzelle propunha para a zona.


fn67fig. 84 - Plano Auzelle Arranjo da zona da Cordoaria no Volume III Quinta Parte. Estudos de Pormenor (Valorização da zona de interesse arquitectónico, Arranjo da avenida Afonso Henriques, Arranjo da zona da Trindade, Arranjo da praça dos Poveiros, Arranjo da zona da Cordoaria, Arranjo da zona a sul das Antas, Zona da Pasteleira. Sector a nascente do Bairro Rainha D. Leonor e Novo Cemitério Oriental da Cidade).

Na planta foram sublinhados a vermelho os enfiamentos visuais que geravam a forma do edifício de escritórios e comércio proposto.

O edifício com rés-do-chão destinado a comércio e 5 pisos de escritórios organizava o local em três espaços de esplanada.

Um voltado para o edifício da Universidade; um outro para o largo junto do Hospital; e um terceiro abrindo para o jardim da Cordoaria tendo por fundo o recém-construído Palácio da Justiça, segundo um projecto pensado nos anos 40, concretizado nos anos 50 e inaugurado em 1961, do arquitecto Raul Rodrigues Lima (1909-1979).

fn68fig. 85 - Luís Almeida d’Eça [2] e Lúcio Miranda, Plano Auzelle Volume III Quinta Parte, Arranjo da zona da Cordoaria. Planta esquemática do edifício Comercial (6 pisos).

Para o quarteirão a norte da praça Gomes Teixeira o Plano propunha a sua demolição integral e a construção de um um centro comercial por excelência, de características nitidamente urbanas.

Foi o tema do Concurso para professor do 1.º Grupo Arquitectura da Escola Superior de Belas Artes do Porto realizados entre 1961 e 1962. [3]

De notar que para o Concurso o quarteirão do Piolho, entre o edifício da Universidade e o Hospital de Santo António, era mantido e era eliminada a rua de Francisco de Sá Noronha [4]

fn69fig. 86 – Planta fornecida aos candidatos do Concurso para professor do 1.º Grupo Arquitectura da Escola Superior de Belas Artes do Porto. 1961.

Legenda:  1, 2 – Ligação entre a rua de Ceuta e a praça de Carlos Alberto  3 - Faculdade de Ciências e Reitoria da Universidade do Porto  4 - Praça de Lisboa  5 - Palácio da Justiça  6 -Praça G. Gomes Fernandes  7 - Praça Gomes Teixeira  8 - Igreja dos Clérigos   9 - Hospital de Santo António

Dos ante-projectos para esse concurso o apresentado pelo arquitecto Fernando Távora (1923-2005) que embora não tenha sido classificado em primeiro lugar, era o mais avançado arquitectónicamente, e o que melhor se integrava na envolvente e assim o que melhor serviria a cidade se tivesse sido construído. Dele apresentamos uma das diversas perspectivas.

fn70fig. 87 - Fernando Távora, Perspectiva do edifício vista da Praça Parada Leitão.

Nenhuma destas propostas do Plano Auzelle para a zona da Cordoaria foi concretizada.

Na imagem podemos ver ao fundo o quarteirão no início dos anos 60 com o café Ancora d’Ouro.


fn71fig. 88 – A Praça Gomes Teixeira c. 1960.

Nesta outra imagem já dos anos 70 (veja-se o autocarro de dois pisos e a instalação das paragens de autocarros) é visível o quarteirão com o café Ancora d’Ouro sem alterações aparentes.


fn72fig. 89 – A Praça Gomes Teixeira nos anos 70.


Ainda na década de 60 e início dos anos 70 dois outros edifícios marcam a zona. O edifício do Hospital da Companhia de Seguros Mundial junto aos antigos Armazéns do Chiado, projectado por Carlos Ramos (A) e o edifício de comércio e escritórios (autor que desconheço. Será do atelier de Agostinho Ricca?) à entrada da praça de Carlos Alberto (B).


fn117afig. 90 – Os dois edifícios numa vista aérea recente. A – Hospital da C.ª de Seguros B – Edifício de comércio e escritórios.


O edifício da Companhia d Seguros Mundial

No edifício projectado pelo arquitecto Carlos Ramos nota-se a preocupação pela relação com os edifícios vizinhos mantendo os ritmos das fachadas.

fn118

fig. 91 – O edifício da Companhia de Seguros Mundial visto da praça G. Gomes Fernandes. c.1970.

O Edifício da Mundial visto da praça Gomes Teixeira. Note-se a permanência do antigo edifício dos Armazéns do Chiado embora degradado.

fn119fig. 92 – O topo nascente da praça Gomes Teixeira num imagem do Google Earth.


O edifício de comércio e escritórios da praça Carlos Aberto

No gaveto da praça Gomes Teixeira com a praça de Carlos Alberto, situa-se um edifício brasonado onde nos anos 60 esteve instalada a Cooperativa Livreira dos Estudantes do Porto (UNICEPE), uma cooperativa que visava tornar-se uma editora universitária à semelhança da Presse Universitaire de France (PUF). No topo do edifício o painel de publicidade da Sacor (depois Galp).

fn116fig. 93 – Foto dos anos 60 ainda sem o edifício.

O existente antes da construcção do novo edifício.

fn73bcompfig. 94 – Praça de Carlos Alberto. Foto do Plano Regulador de Almeida Garrett c.1952.



fn121afig. 95 – O edifício visto da praça Carlos Alberto na actualidade. Pormenor de uma imagem do Google Earth.


[1] Ver neste blogue Os Planos para o Porto 8

http://doportoenaoso.blogspot.pt/2011/04/os-planos-para-o-portodos-almadas-aos.html

[2] Luís Pedro de Lima de Moura Coutinho de Almeida d’Eça (1921-2011).

[3] Ver neste blogue Os Planos para o Porto http://doportoenaoso.blogspot.pt/2011/05/os-planos-para-o-portodos-almadas-aos_03.html

[4] Francisco de Sá Noronha (1820-1881). Violinista e compositor.


O Quarteirão e o Plano de Duarte Castel-Branco

Após o 25 de Abril é o Plano Director de Auzelle que é posto em causa e a Câmara encarrega o arquitecto Duarte Castel-Branco (1928-2015), de elaborar a revisão do Plano Auzelle.


fn81fig. 96 – Proposta da Carta de Síntese do Plano Castel-Branco 1989/91.

Após um longo período de avanços e recuos na sua elaboração o plano é aprovado como Plano Director Municipal em 1993.


fn81efig. 97 – Planta de Síntese do Plano Castel-Branco 1993. CMP.

No longo tempo de elaboração do Plano destaque-se a realização do Parque da Cidade.

No que respeita à mobilidade destaque-se ainda a conclusão da VCI e a construção das pontes rodoviária do Freixo e ferroviária de S. João, e não fazendo parte do Plano, o túnel do Campo Alegre e o viaduto da Areosa.

No Plano que não previa a realização de qualquer túnel ou viaduto, a zona da Cordoaria estava no limite do proposto duplo anel de circulação que envolveria o centro da cidade evitando a construção de "obras de arte", ou seja viadutos e túneis, não causando por isso, rupturas no tecido consolidado da cidade, e que se destinava à progressiva eliminação, no seu interior, da circulação de veículos privados.

Este plano de circulação nunca foi concretizado.

No início do século inicia-se ao arrepio do Plano Castel-Branco, a construção do túnel da rua de Ceuta.


fn81dfig. 98 – Proposta dos eixos de grande circulação no Plano de Castel-Branco

A cidade seria também dividida em 19 Unidades de Ordenamento sujeita a planos de pormenor.

A Cordoaria fazia parte da Unidade de Ordenamento L3.


fn81ccompfig. 99 – Unidades de Ordenamento. Plano de Castel-Branco

Apesar destas propostas, nunca realizadas, o Quarteirão do Piolho mantém-se inalterado.


fn81acompfig. 100 – Pormenor da Planta de Síntese do Plano Castel-Branco. Unidade de Ordenamento L3.

Repare-se na permanência do Quarteirão (a amarelo na imagem) limitado pelas duas vias do Duplo Anel de Circulação.


fn81bcompafig. 101 – A zona da Cordoaria. Pormenor da Planta de Síntese do Plano Castel-Branco.



O Centro Histórico do Porto Património da Humanidade

A partir do 25 de Abril, com a criação do Comissariado para a Renovação da Área Ribeira-Barredo (CRUARB), inicia-se o desenvolvimento e a difusão da ideia de património edificado que irá resultar em 1995 na consagração do Centro Histórico do Porto como Património da Humanidade pela UNESCO.

É então delimitada uma vasta área de protecção onde é englobada a Zona da Cordoaria e o Quarteirão (assinalado pela letra Q na imagem) que fica definitivamente consolidado pelas directrizes de protecção do património.


fn123afig. 102 – O Centro Histórico do Porto classificado como Património da Humanidade.

Nesta outra planta o Quarteirão está assinalado a amarelo e os edifícios e frentes urbanas classificados, assinalados a vermelho.

fn74bfig. 103 – O Quarteirão sublinhado a amarelo na Planta de delimitação da zona de protecção do Centro Histórico do Porto como Património da Humanidade. CMP.

No final do século XX a zona conservava-se inalterada desde o meado do século e apenas a praça de Lisboa (antigo mercado do Anjo) tinha sido transformada pela criação de uma plataforma comercial e de um parque de estacionamento subterrâneo.


fn80compfig. 104 – Vista aérea da zona. Foto de Filipe Jorge in O Porto visto do Céu, Ed. Argumentum Lda. Porto 2000.


A intervenção da Porto 2001

No início do século XXI, com a realização do Porto 2001, Capital Europeia da Cultura, é lançado um vasto programa de intervenção na área central da cidade.

Não importa aqui avaliar o conjunto das intervenções da Porto 2001 e as polémicas que daí resultaram.

Apenas analisaremos as transformações que resultaram para a zona da Cordoaria.

Para a zona da Cordoaria são apresentadas três propostas, todas elas mantendo o quarteirão do Piolho, sendo que a que foi finalmente concretizada da equipa do arquitecto Camilo Cortesão que, para além do Jardim da Cordoaria [1], alterou a circulação e a pavimentação de toda a zona envolvente do edifício da Reitoria da Universidade.

Sob esta foi completado o parque de estacionamento que a partir do parque existente na praça de Lisboa se estendeu para a praça Gomes Teixeira, praça Carlos Alberto e Palácio da Justiça.

fn76compfig. 105 – A Área de Intervenção Oeste A. Pormenor de Baixa Portuense. Programa de Requalificação Urbana. Intervenções a promover pela Porto 2001. Porto 2001:Regresso à Baixa.FAUP 2000.

A equipa vencedora do concurso limitado propunha a conservação e reabilitação do Quarteirão e de practicamente toda a sua envolvente.

fn77compfig. 106 – Proposta da equipa de Camilo Cortesão. Planta de Requalificação do Edificado. Porto 2001:Regresso à Baixa.FAUP 2000.

A intervenção consistiu na pavimentação (tendo em conta a construcção dos parques de estacionamento subterrâneos) e na alteração da circulação.


fn77acompfig. 107 – O quarteirão visto do sul durante as obras de requalificação da Porto 2001. In Registos de uma transformação. Ed. Porto 2001. Porto 2002.


fn77bcompfig. 108 – A praça Gomes Teixeira durante as obras de requalificação da Porto 2001. In Registos de uma transformação. Ed. Porto 2001. Porto 2002.

Na imagem seguinte (fig.96) pode-se ver as obras de pavimentação da praça Gomes Teixeira; a praça Parada Leitão e o Jardim da Cordoaria já intervencionados e ainda em obras o largo Abel Salazar e a praça de Carlos Alberto.


fn77dcompfig. 109 – Vista aérea de norte da zona em Maio de 2002, durante as obras de requalificação da Porto 2001. In Registos de uma transformação. Ed. Porto 2001. Porto 2002.


O Plano Director de M. Fernandes de Sá (em vigor desde 2006) [2]


Terminando em 2003 a vigência do Plano Director de Duarte Castel-Branco, a CMP encarregou uma equipa liderada pelo professor e arquitecto Manuel Fernandes de Sá de elaborar a sua revisão.

Dessa revisão resultou o actual Plano Director Municipal elaborado entre 2000 e 2005 e aprovado em 2006.

fn120fig. 110 – Planta de Ordenamento. Carta de Qualificação do Solo. PDM. CMP.

No plano de 2006 a zona da Cordoaria está classificada como Frente urbana contínua consolidada (cor bordeaux na planta) que permite apenas obras de Conservação, Reabilitação, Alteração e Ampliação, com Cérceas semelhantes ao Existente (+ 1/3 da existente, < moda da frente) e Alinhamentos segundo a dominante. Ou seja o Quarteirão mantem-se inalterado na sua configuração, sendo apenas permitidas as obras de conservação e reabilitação.


fn97bcompfig. 111 – A zona da Cordoaria. Pormenor da planta de Ordenamento. Carta de Qualificação do Solo.


A situação actual do Quarteirão.


fn103fig. 112 – A zona da Cordoaria no Google Earth.

Após a criação de umas polémicas construções no local das esplanadas da praça Parada Leitão, entretanto obrigadas a demolição, a zona consolidou-se e muito do seu edificado foi recuperado já que toda a baixa do Porto e em particular a zona junto da rua das Carmelitas e rua de Ceuta estendendo-se para a praça dos Leões e Carlos Alberto, se tornaram polos de animação nocturna, arrastando sobretudo a criação de estabelecimentos de restauração e de comércio.

No Quarteirão note-se a proliferação de estabelecimentos de restauração, de que se destacam alguns do início do século XX como o Piolho (café Ancora d’Ouro) ou dos meados desse século como a confeitaria Primar e o restaurante a Tasquinha. Do mesmo período os restaurantes o Papagaio e Zé-Bota na travessa do Carmo, e ainda em todas as outras frentes alguns mais recentes.


fig. 113 - Quarteirão com o Café Piolho (Ancora d’Ouro) lado nascente e nort. Novembro de 2017.


fn93compfig. 114 - Travessa do Carmo no lado norte. Novembro de 2017.


fn92compfig. 115 - Quarteirão lado poente. Novembro de 2017.


fn91compfig. 116 - Quarteirão lado sul. Novembro de 2017.


[1] Ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2017/12/o-porto-atraves-de-uma-panoramica-de.html

[2] Em revisão que termina em Março de 2018.


E para terminar se o tempo ajudar vou tomar um café na esplanada do Piolho